quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Cuidado!

Os bichos estão soltos:

O pavão, furioso com o veneno da serpente, abriu a cauda colorida e pôs-se a desbocar palavrões a todos os bichos ao redor.

A serpente de duas cabeças, bela e calma, aprontava todas e suas falácias enganavam a bicharada.
De um lado, afagava o tigre; doutro, delatava o urso.

O urso sumiu. disse a todos não suportar mais o calor e o desalento: foi gelar o coração nos alpes.

Enquanto isso, a macacada continuava a palhaçada, ao som dos pássaros cantando incessantemente "idiot, idiot, idiot"...




Fergath

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Noite passada o mar bateu
na janela do meu quarto...
Ele quis tirar-me o delírio
quis-me dar um banho.

(Apagasse meu passado,
esfriasse-me os desejos)

Eu fingi que não ouvi
não senti os pingos seus
ultrapassando as frestas
só pra me acordar.

Aquela onda gigante
avassalou jardim lá fora
e fora pra outra janela
que quisesse lavar seus sonhos.


(Fergath)

domingo, 8 de novembro de 2009

Meio sendo

Entrou no quarto
meio molhada
meio sem sono
meio triste.

Deitou na cama
meio confusa
lágrimas misturam-se
às gotas da chuva.

E pensava meio
acordada meio não
na vida de alguns
de outros poemas.

E não queria só
sonhar assim
sendo o meio
para os poréns.

Juntasse todos
meios e meios
para montar
um inteiro.

Cansou de ser
ali sem ser
vestiu um par [de meias]
e dormiu dormiu.


(Fergath)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Eu me perdi. Espalhei-me por uma década e tantos anos. Eu não sei o que aconteceu, não me lembro, não posso e nem consigo recordar quem eu era, quem eu fui, e já não sei quem sou e o que será de mim. Milhares de cacos espalhados, um vaso de vidro fino lançado com força contra a parede. A violência foi tanta que, aos cacos juntava-se o sangue vivo, pintando alguns dos micro pedaços cortantes. Os cacos ferem sem querer e as cicatrizes ficam para sempre. Elas não sabem ir embora, são mais profundas que as desculpas. Fazem na pele o registro dos tropeços na sua história. Sempre fica o veneno do vidro misturado ao sangue do ferido, dizia a mãe. Sempre fica um pouco de você no outro. Nem álcool dissolve.
Sou velha para daqui uma década, mas depois de cinquenta anos eu serei lembrada. Eu não sou daqui. Meu lugar não é aqui. Eu preciso dos velhos amigos para saber quem sou. Mas eu não os tenho.
Tudo o que sou são palavras escritas a lápis. Você saberá se são verdadeiras quando perceber que, debaixo do papel estão as de outrora. Sim, foram apagadas e o que está escrito por cima destas não conseguiu cobrir as marcas daquelas escritas com tanta força, mas que já não brilham.

(Fergath)

sábado, 17 de outubro de 2009

Cansei de ser cética:

Em um mundo qualquer,

há de ter alguém,

de mim uma réplica,

que seja o meu bem.

(Fergath)

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O poeta morre de desgosto
por optar não viver
emoções que lhe batem no peito.
Prefere sucumbir ao paradoxo
liberdade x angústia.

O mal do poeta é
o amor não realizado,
ou achas que eu trocaria
uma noite de amor tranquila,
por 19 poemas desajustados?

(Fergath)

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Teve um dia difícil. Lembrou de amores passados, mal resolvidos. Estava com a agenda repleta de coisas para fazer, vários livros têm de ser lidos, há muitas coisas para escrever. Entregar, pagar, comprar, acertar. Discutir, falar, gritar, entristecer, desabar.

Todo dia é assim. Enquanto anda pelas ruas, ouve a voz da sua mente dizendo “tem isso, tem aquilo, pra hoje, pra amanhã”, e o ritmo acelerado do coração. As pernas não lhe acompanham, os olhos quase não vencem em olhar para os dois lados da rua. Acha que precisa de uma nova bateria de exames. Ou de férias. Agora sabe, sente na pele o mal do século.

Na metade do dia, para por 10 minutos. Pensa que gostaria de estar em algum lugar, bem longe, colhendo flores, pensando em amores, mas só aqueles que não foram, porque estes são os realmente agradáveis. Você inventa. Nem liga pro sol, com seu chapéu enorme, só os dois, num campo imenso, ao ar fresco. E quando o sol se esconde, já está em casa, lendo uma história, com os pés em cima do baú. É isso: tudo que ela queria agora eram um baú, uma cama e uma colcha de retalhos.

Finda o dia. Detesta a vontade que sente de comer de hora em hora. Uma mesa repleta de pães e sonhos, com muito açúcar, e café, muito café. É um prazer instantâneo, ou que demora 5 minutos pra passar. Comer é tempo perdido. Sonhar não é.

Toda noite é assim. Depois, vira, revira, cobre, descobre, bebe água e até esquece que bebeu. Bebe de novo. Tem vontade de ir ao banheiro, levanta. A cabeça pulsa e acompanha o corpo que, apesar de cansado, não desfalece, não relaxa. Cobre-se até os cabelos. Sente calor.

No meio da noite, Levanta. Quer comer uma fruta, descasca. Enquanto descasca a fruta pensa que o dia poderia ter sido diferente, e nunca é. A faca é afiada, e em cada volta em que desnuda a fruta, pensa estar apagando o seu dia. Cada vez mais intenso, intenso. Até não sobrar nada. Corta o dedo, fundo. Olha para o sangue escorrendo, o dedo cortado e chora, chora, chora.Chora tudo aquilo que cultivou nas últimas 12 horas. Não come a fruta, que fica ali, dilacerada. E vai deitar.

Cobre-se e pensa que não vai mais existir em alguns instantes. Dorme. Depois acorda como se estivesse num incêndio, tensa, com as roupas encharcadas de suor. Tira, tenta dormir. Nua, sente frio. Daqui a duas horas tem de acordar. Tem esperança de que o amanhã seja um dia melhor, de rever um amigo, dar um abraço. Compartilhar aquilo que não cabe no seu dia a dia. Não tem espaço. Sonha com um reencontro, um olhar profundo e um beijo molhado, longo, longo.

O despertador toca, com aquele barulho insuportável que só lembra-se de mudar na hora em que funciona. É sempre o mesmo. E nunca muda.

São dias inteiros, intermináveis. Gostaria de vivê-los só pela metade. E já estaria de bom tamanho.


(Fergath)